O Poeta é um Fingidor [5]


Fiama Hasse Pais Brandão nasceu em 1938, em Lisboa.
Poetisa, dramaturga, ensaísta e tradutora, Fiama deu-se a conhecer com Morfismos no movimento Poesia 61, movimento que está na origem de uma profunda revolução na linguagem poética portuguesa dos anos 60.
A sua obra caracteriza-se por uma grande densidade da palavra, mas de grande rigor e depuramento formal.
Para Fiama a poesia tem de entender-se como um processo vivo.
Nas palavras de António Ramos Rosa “...qualquer dos seus poemas é um percurso acidentado e abrupto que gera na fragilidade irredutível de uma identidade perplexa mas insubmissa”.

Natureza morta com louvadeus

Foi o último hóspede a sentar-se
no topo da mesa, já depois do martírio.
As asas magníficas haviam-lhe sido quebradas
por algum vento. Perdera o rumo
sobre a película cintilante de água
no riacho parado. Tal como poisou
junto de nós, com o belo corpo magro
arquejante, lembrava, ainda segundo o seu nome,
um santo mártir. Enquanto meditávamos,
a morte sobreveio, e a pequena criatura,
que viera partilhar a nossa mesa,
depois de ter sido banida das águas
foi banida da terra. Alguém pegou
no volúvel alado corpo morto
abandonado sem nexo na brancura da toalha
- que maculava -
e o atirou para qualquer arbusto raro
que o poeta ainda pôde fotografar.

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