No regresso às aulas ... o regresso de Jorge de Sena

Ode para o Futuro

Falareis de nós como de um sonho.
Crepúsculo dourado. Frases calmas.
Gestos vagarosos. Música suave.
Pensamento arguto. Subtis sorrisos.
Paisagens deslizando na distância.
Éramos livres. Falávamos, sabíamos,
e amávamos serena e docemente.

Uma angústia delida, melancólica,
sobre ela sonhareis.

E as tempestades, as desordens, gritos,
violência, escárnio, confusão odienta,
primaveras morrendo ignoradas
nas encostas vizinhas, as prisões,
as mortes, o amor vendido,
as lágrimas e as lutas,
o desespero da vida que nos roubam
- apenas uma angústia melancólica,
sobre a qual sonhareis a idade de oiro.

E, em segredo, saudosos, enlevados,
falareis de nós - de nós! - como de um sonho.


É hoje considerado um dos grandes poetas de língua portuguesa e uma das figuras centrais da cultura do século XX: Jorge de Sena.
50 anos depois de ter saído de Portugal por razões políticas os seus restos mortais [morreu há 31 anos] foram trasladados para um jazigo no cemitério dos Prazeres, em Lisboa.
A relação de Jorge de Sena com Portugal [ou pelo menos com a intelectualidade portuguesa] nunca foi fácil e basta recordar o poema: “Esta é a ditosa pátria minha amada. Não. /Nem é ditosa, porque o não merece. / Nem minha amada, porque é só madrasta/ Nem pátria minha, porque eu não mereço/a pouca sorte de ter nascido nela. //”.
Ainda assim, este escritor português (1919-1978), poeta, ficcionista, dramaturgo e ensaísta, deixou-nos uma obra vasta e multifacetada e marcada pela reflexão humanista acerca da liberdade e merece que Portugal o receba pois, em acordo com (Queiroz, 2006) a liberdade e a verdade só foram encontrados nos seus exílios “… Múltiplos e eternos. Como homem, em desalinho com seu tempo; como português, em desacordo com o salazarismo. Em Portugal, no Brasil ou nos Estados Unidos, foi sempre escritor português, ainda que cidadão brasileiro e professor norte-americano. Era de Portugal e a Portugal escrevia; e, sobretudo, era Portugal o que perseguia.”

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