O que é a ciência? o olhar de Feynman


Começa a ser um lugar-comum a afirmação que dá conta de vivermos na era da ciência e da tecnologia. Todos os dias surgem novas descobertas e precisamos de estar preparados para viver num mundo complexo e de rápidas mudanças.
É neste contexto que se impõe a absoluta necessidade de desenvolvermos outras formas de estar e de pensar pois somente assim será possível adaptarmo-nos à contínua evolução da sociedade. Parece-nos inequívoco que será o aumento das nossas competências em ciência um dos suportes que contribuirá para atingir tal desiderato.
Naturalmente surge sempre a questão do que entendemos por ciência. Deixamos o pensamento de Richard P. Feynman.
Feynman, prémio Nobel da física [malogradamente já não está entre nós (1918-1988)], disse-nos que aprendeu o que é a ciência, ainda ele comia numa cadeira alta, quando o pai após o jantar lhe propunha um jogo recorrendo a mosaicos de cores diferentes. O objectivo era colocar os mosaicos de modo a formar sequências. Primeiro deixava-o brincar com os mosaicos e depois, de forma prudente e cautelosa, acrescentava matéria de valor educativo. Este jogo ajudou-o a prever e a realizar arranjos bastante complicados de sequências de cores ultrapassando com facilidade os testes que lhe foram colocados no jardim-de-infância.
Apontou, também, que aprendeu o que é ciência durante os passeios pelos bosques que costumava fazer com o pai e conta a história de um menino que uma vez lhe perguntou se sabia o nome de um pássaro que se encontrava perto deles e de cujo nome não se lembrava (diz que não é bom a decorar nomes), ao que o menino lhe respondeu: “É um tordo de papo castanho”. Na verdade o seu pai já lhe tinha ensinado, mas disse-lhe que o nome não dizia nada do pássaro mas sim sobre as pessoas que o dizem, pois em cada língua diz-se de maneira diferente. No entanto ensinou-lhe que o pássaro canta, ajuda os seus filhos a voar, migra voando muitas centenas de quilómetros e sempre pelo mesmo caminho… e que há grande diferença entre o nome de uma coisa e o que se passa com ela.
Para Feynman, para aprender a que diz respeito a ciência, é necessário fazer observações e muita paciência. Mas caso se pretenda ensinar a fazer observações, deve começar-se por mostrar que elas podem conduzir a coisas maravilhosas e evidencia que se olharmos, observarmos e prestarmos atenção podemos tirar disso grande recompensa…
De acordo com Feynman se há qualidade para a ciência é que ela ensina o valor do pensamento racional, assim como a importância da liberdade do pensamento. Mas a ciência não nos ensina nada, a experiência sim, essa é que nos ensina. A grande descoberta é que vale mais a pena verificar tudo através da experiência direta, do que confiar na experiência transmitida do passado. A ciência apresenta a riqueza de uma visão do mundo criada por ela: a beleza e as maravilhas do mundo tal como as descobrimos através dos resultados de experiências novas.
[A scientific theory] describes Nature as absurd from the point of view of common sense. And it agrees fully with experiment. So I hope you can accept Nature as She is - absurd.
I'm going to have fun telling you about this absurdity, because I find it delightful. Please don't turn yourself off because you can't believe Nature is so strange. Just hear me all out, and I hope you'll be as delighted as I am when we're through."
In the introductory lecture on quantum mechanics reproduced in QED: The Strange Theory of Light and Matter (Feynman 1985).


Adaptado do texto “ A importância da ciência” de Eva Roberto e Glória Baptista

Comentários

Mensagens populares deste blogue

A importância de ciência no mundo atual